]]> “De um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra.” At 17.26 Gente colorida, indo e vindo de todos os lugares: angolanos, indianos, paquistaneses, brasileiros, franceses e portugueses, é claro. Todos marcados pelo legítimo sonho da felicidade. São apenas e inevitavelmente seres humanos, famintos por dias ensolarados e brisa fresca que lhes embale a alma. O sol invade o vagão do trem, ou melhor, comboio, como é chamado por aqui, em terras lusitanas. É manhã e mais um dia de alvoroço, agitação, emoções e muitas expectativas soprando no ar. Olhares variados: uns transmitem ânimo, como qualquer sorriso infantil; outros, apreensão, pois pressentem que a vida não se deixa dominar e teima em surpreender, como qualquer animal selvagem que tem em seu DNA transgressão e liberdade. A cada estação, ou melhor, paragem, abrem-se as portas que deixam escapar os anônimos que partem para seus destinos como caçadores, ávidos por sua presa. Mas também por elas invadem novos anônimos em busca de incontáveis ambições. Esse vai e vem me faz lembrar Albert Camus: “No meio do inverno, descobri que havia, dentro de mim, um verão invencível.” Vejo que, de tão diferentes, somos absolutamente semelhantes. Todos vocacionados a sermos felizes, ainda que os percalços nos visitem, mesmo sem nossa autorização. Sinto-me tão longe do que me acostumei a chamar de pátria. Sinto-me tão perto e acolhido por esses desconhecidos irmãos, anônimos como eu. O comboio segue viagem, e eu sou mais um a deixá-lo, direcionando meus pés ao futuro, alimentado por meus devaneios, certo de que não estou sozinho, mas, sim, acalentado por tantos como eu, meus semelhantes, ainda que tão diferentes.
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